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UM POEMA À WHITMAN

No dia 12 de maio de 2018, véspera do Dia das Mães e da data em que se comemora a abolição da escravatura (13 de maio), eu e o poeta Hudson Pereira fizemos parte de uma homenagem ao poeta Walt Whitman (1819-1892), considerado por muitos como o maior poeta da América do Norte.  O tributo foi promovido durante o evento “Um Brinde à Poesia”, organizado por Lucília Dowslley, poeta, compositora e representante da Dowslley Editora, de Niterói-Rio de Janeiro.  Aconteceu à tarde, no Museu de Arte Contemporânea (MAC), de Niterói.  Situado à beira da praia de Boa Viagem, o MAC-NIT é um misto de escultura com arquitetura, concebido pela mente visionária e futurista do genial Oscar Niemeyer.  O encontro marcava também o aniversário de Lucília.

Embora não seja um especialista em Whitman, nos anos 80 do século XX, eu lera duas biografias a respeito dele, além de vários poemas do autor, em obras que traziam seleções de seu escrito principal: o livro “Folhas de Relva”, poesia, uma obra que ele publicou em 1855 e que foi passando por inúmeras revisões, supressões e acréscimos até o ano de seu falecimento, 1892 (a chamada “edição no leito de morte”, correspondente à nona).  Na primeira edição, tinha pouco menos de 100 páginas.  Hoje, é possível baixar na internet ou adquirir impressa, uma versão traduzida de “Folhas de Relva” com quase 400 páginas.

A melhor biografia sobre Whitman foi a escrita pelo norte-americano Paul Zweig, intitulada “Walt Whitman, a formação do poeta” (Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1988, 383 p., brochura, com orelhas).  Não tenho essa obra à venda em minha livraria, pois só disponho de um exemplar, que, até hoje, consulto.  No entanto, ainda se encontra com facilidade o volume em outros livreiros de usados.

Dentre outras coisas, por essa biografia ficamos sabendo que Whitman trabalhou desde a juventude até o fim da vida como jornalista, mesmo quando eventualmente exerceu outras atividades.  E ficamos a par que foi um jornalista politicamente combativo, posicionando-se em favor da democracia e do fim da escravatura.  Descobrimos ainda que foi ele quem, pela primeira vez, utilizou o verso branco.  Whitman entendia que o verso branco, o verso livre, expressava a forma que deveria ter a poesia de um mundo igualmente livre.  E aqui é preciso lembrar que ele foi um poeta ainda remanescente do pioneirismo liberador do “sonho americano”. E, mais uma vez, foi ele que, primeiramente, trouxe toda sorte de temas para a poesia.  Em Whitman, em coerência com sua visão de totalidade, tudo era inclusivo, qualquer tema ou objeto se podia inserir na poesia.  E é assim também que ele se torna o primeiro poeta a tratar do assunto da homossexualidade em poesia.  E ele o fez em um livro inteiro, chamado “Cálamo”, incluso em seu “Folhas de Relva”.

O conteúdo cósmico, expansionista e liberador da poesia de Whitman causou um profundo impacto em minhas reflexões enquanto poeta.  Também, a descoberta de seus métodos de trabalho, pela extraordinária biografia escrita por Zweig, que a gente devora como quem lê um bom romance.

As palavras “saudação” e “canto” são termos-chave na poesia de Whitman. Também, a expressão de seu amor incondicional por cada pessoa, por cada indivíduo.  Na poesia de Whitman, ninguém fica de fora.  E foi pensando em tudo isso que escrevi o poema “Canto ao Futuro”, presente na página 193 de meu livro “Fronteiras em Liquidação”, poesia, pela Dowslley Editora (à venda nesta livraria).  Um poema às crianças, a todas as crianças.  Uma forma de homenagem, literalmente, à Whitman. Uma palavra de otimismo e celebração, num livro que se acha muito longe de qualquer otimismo pueril.

Não sei se por causa das datas, se pelo clima de celebração, se pela “presença” de Whitman, mas o fato é que terminei fazendo uma leitura forte e altamente emotiva, que obteve grande receptividade do público.  Eis o poema:

CANTO AO FUTURO

Eu saúdo as crianças do mundo.
Magrinhas ou gordinhas,
pobres ou burguesas,
sem dentes ou sorridentes.
Crianças na alma,
Quintanas em quintais.

Crianças redondas,
num mundo de luz,
brincando nas telas
de Orlando Teruz.

Crianças de cabelos de ouro
ou vermelhos como fogo;
de olhos tristes e pedintes;
de mãos pequenas e graciosas;
de cheiro de talco e pele viçosa.

Crianças de todas as cores e etnias:
amarelas, brancas, caboclas, douradas,
mulatas, negrinhas, rosadas…
Eu as saúdo, em todas as partes do mundo.

Seja forte ou doente,
Certinha ou problema,
Criança é poema.

(Ricardo Alfaya)