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Poema do livro “Café com Canela”, de Graci Sá

A título de degustação, transcrevemos  o poema presente na quarta capa do livro “Café com Canela”, de Graci Sá, à venda em nossa livraria. Segue também uma foto da autora no dia do lançamento da obra (colhida da página da escritora no Facebook).  Outro livro da coleção Sementes Líricas, aqui disponível para venda, é “Múltiplo Um”, da excelente poeta, ficcionista e dramaturga Maria Helena Latini (livro prefaciado por mim, Ricardo Alfaya).  E, num formato muito semelhante, seguindo a mesma linha editorial, “À Margem: volume 2”, do premiado Flávio Machado.  As três obras você encontra em nossa loja.

 

SE ESSA RUA

Se essa rua fosse minha
Eu mandava asfaltar
Tirava os buracos do caminho
E plantava uma árvore pra cada vizinho admirar

E essa não é promessa de outubro
Dessas que aparecem na televisão
É desejo, vontade. Merecia até um delubro

Não haveria solidão
Se essa rua fosse minha,
Não haveria roubos de coração
Muito menos, assaltos no portão

Se essa rua fosse minha
Eu colocaria trinta e uma flores na calçada
E pintaria de rosa as escadas
Só para todo mundo – e cada um
Passar mais tempo na sacada.

(Graci Sá)

 

Nota: “delubro” significa “templo pagão” (cfe. o Aurélio Eletrônico).

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ANTOLOGIA POETRIX 5 – Textos para degustação

Lindo e muito bem organizado (por Goulart Gomes) o volume “Antologia Poetrix 5”, do qual dispomos de sete exemplares à venda, por ótimo preço.  Exemplares novos, lançados em 2017.  O poetrix, conforme já é do conhecimento público, constitui um gênero minimalista de poesia. Foi lançado em 1999 pelo baiano Goulart Gomes.  Suas regras formais são fáceis de entender: tercetos, com até trinta sílabas (no total dos três versos), com título.  Pode conter rimas ou não e admite o uso de recursos gráficos (negritos, parênteses, intercalações de sinais e outros).  Quanto ao conteúdo, não possui regras inflexíveis. A temática é completamente livre, mas é desejável que o texto contenha um elemento de surpresa ou de encanto, conforme sucede com o haicai, em cuja leveza se inspira.  Também se espera que o título não seja mero penduricalho, mas sim, que dialogue o mais intensamente possível com os versos, muitas vezes agindo como complemento do poema.  O bom poetrix é sobretudo uma poesia de registro de “insights”.  Instantâneos, tanto do mundo exterior quanto do universo interior do poeta.  Dos gêneros poéticos existentes, o poetrix e o haicai são aqueles que melhor evidenciam o quanto a prática da poesia pode levar a um estado comparável ao da meditação.  Poesia que pode resultar da contemplação profunda, como nos ensina Cecília Meirelles, que tão inspiradamente percebeu que alguns dos melhores poetas não são propriamente catárticos e, muito menos, eufóricos.  Muitos dos melhores seguem o modo como a própria Cecília se autodefiniu: “Não sou alegre, nem sou triste: sou poeta.”   Neste doloroso momento da História Brasileira, em que vemos de novo o país ser inteiramente subserviente a essa entidade fantasmática chamada “mercado” e, mais uma vez, posto de joelhos perante os interesses dos EUA, é mais do que oportuno, até como forma de resistência, valorizarmos o que seja culturalmente nosso.  E o poetrix é, antropofagicamente, nosso.

Da “Antologia Poetrix 5” participam 43 poetas de todo o Brasil, incluindo o fundador do movimento, Goulart Gomes. Também participo dessa edição, que foi lançada em várias capitais do Brasil.  No lançamento ocorrido no Rio de Janeiro, em 11.08.2017, tive a satisfação de contatar pessoalmente alguns dos participantes que há muito conhecia apenas pelos trabalhos.  Cada um dos integrantes entrou com doze tercetos.  Portanto, temos aqui nada menos do que 516 poetrix.  A quase totalidade dos participantes escreve há muitos anos, e vários são nomes bem conhecidos dentro do Movimento Internacional Poetrix, com inclusão em inúmeras antologias do gênero, além de possuírem obras individuais.  Sem dúvida, todos mereceriam ter ao menos um poema selecionado para degustação.  Mas se ponho aqui 43 poemas do livro, isso já não seria uma degustação, mas uma refeição completa.  Então, escolhi, um tanto aleatoriamente (não são necessariamente os “melhores” poemas do livro), 16 trabalhos representativos, de diferentes autores.  Vou exibi-los em ordem alfabética, conforme aparecem na obra:

 

Por que rio?

Com tanto mar,

que diferença fariam

as minhas lágrimas?

(Aila Magalhães)

 

Artesanato

Extremamente fácil

desfazer-se do espesso pó

sobre as flores de plástico.

(Andrea Abdala)

 

Teatral

Chopin ao piano,

cair da tarde,

abre-se o pano!

(Antonio Carlos Menezes)

 

Lisboa

Nas paredes – azulejos,

na solidão – um fado.

Um barco nas águas do Tejo.

(Cecy Barbosa Campos)

 

Outono brasileiro

Golpe na democracia

Sonho em luto

Luto por igualdade

(Cristina Amorim)

 

Só existe um banco bom

O velho banco da praça

sem bancar nenhum centavo

não tem dono – é de graça.

(Cyro Mascarenhas)

 

Mil e uma noites

Antes de puxar o meu tapete

– cara senhora, caro senhor -,

saibam que ele é voador.

(Francismar Prestes Leal)

 

Comme la rose du petit prince

Incrível como é relativo o perfeito

o que mais me encantava

era o seu maior defeito

(Gersínio Neto)

 

Brinquedo

Latas, gravetos, ossos.

O menino

arquiteta mundos.

(Gilvânia Machado)

 

Cerca elétrica

O homem planta postes.

Vã tentativa

de cercar o tempo.

(Giuseppe Caonetto)

 

Poeira

uns, pretos

outros, brancos

até virarmos cinzas

(Goulart Gomes)

 

Espelhos

No teu rosto cálido,

dois olhos lúcidos

me contemplam pálido

(José de Castro)

 

Manias

Lavar as mãos dez vezes

trancar a casa cinco vezes

beijar tua boca para sempre

(Lílian Maial)

 

Paisagens de Viagem

Trago, cá dentro, imagens:

cenas, visuais bagagens e o

avesso de tanta roupagem.

(Paula Valéria)

 

Fugidias

Em tardes cinzentas como a saudade,

penso no valor das mãos:

acariciam lembranças fugazes.

(Regina Lyra)

 

Saltimbanco

Vive pulando

de montanha em montanha,

enganando abismos.

(Ricardo Alfaya)

 

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Um poema de Elaine Pauvolid

À SOLEIRA DA PORTA

Não sei do fado,
deixo-o sem glória e saio.
Piso na vida com tal zelo
que não nego os que me chegam,
nem tampouco me cegam ódio e medo.
Contraditória e calma,
varro a soleira da porta,
pensando nos meus erros,
com humildade caseira
e plenitude idólatra.

Elaine Pauvolid, em “Donde Evade”, em “Rios, coletânea de poemas”, Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2003 p. 29.

“Rios” é uma coletânea que reúne cinco livros de poesia. Saiba mais sobre esse livro, que foi considerado um dos melhores do ano de 2003, em seu gênero, clicando aqui.