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Autenticidade ou Alienação: a busca de um caminho próprio

Este é o título e o tema de nosso artigo desta semana para a revista eletrônica Rio Informal.  São já 16 postagens de nossa autoria postadas semanalmente naquela revista, na “Sala Literatura”.  Lá falamos de livros e das reflexões decorrentes de nossas leituras.  Na matéria que entrou ontem, também tratamos de ideologia, assunto que ilustramos com a capa do livro “O Aprendizado da Ordem: a ideologia nos textos escolares”, da autoria de Maria Filomena Rego, obra que em breve estará disponibilizada nesta livraria. Eis o link:

http://www.rioinformal.com/ricardo-alfaya/

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Li Po na Eternidade Humana de Márcio Catunda

 

Aqui temos uma imagem do poeta chinês Li Po, também conhecido por Li Bo e Li Bai, além de alguns outros nomes.  Li Po viveu na China Antiga, supostamente entre 701-762.  Tudo é muito incerto, do ponto de vista histórico, a respeito de Li Po, mas seus poemas taoistas são um fato, e ele foi praticamente o único poeta sobrevivente de uma “era de ouro”, da poesia chinesa antiga, durante a dinastia Tang, em que havia 2.300 poetas em atividade.  Alguns de seus poemas, seu nome e sua biografia, com todas as imperfeições (até hoje se discute e se disputa quanto à cidade exatamente em que ele nasceu) fazem parte do raro legado que nos chegou daquele tempo.

Penso que nunca me atreveria ao cometimento do escritor e diplomata cearense Márcio Catunda, que ousou destacar 66 nomes, dentre personalidades históricas e fictícias, a quem concedeu o prêmio da Imortalidade, em seu livro “Eternidade Humana”, poesia, recém-lançado neste 2018.  Porém, se eu o fizesse, com certeza também, a exemplo de Márcio, salvaria Li Po do terrível limbo do esquecimento.

E o livro “Eternidade Humana” entrou ontem, nos quatro pontos de venda do Alfaya Livreiro, inclusive, no Alfaya Livreiro da Loja 2, a que este blog é vinculado.  Abaixo, transcrevo o poema de Márcio Catunda dedicado a Li Po, um dos mais belos do livro, presente na página 38 da obra. (Ricardo Alfaya)

O VIAJANTE LI PO

Da ribeira do rio Yantsé,

Li Po foi ver a Lua refletida no arroio Shan.

Na geada branca do outono,

reclinou-se sobre a relva ondulante,

à sombra noturna do monte Taisahn,

e as flores riram da sua solidão.

Bebeu com os tangedores de cítara.

Dormiu ao relento no Templo da Montanha.

Contemplou a cascata do Monte Lu.

Sob o céu da estrada longa e difícil,

cantou a saudade das cigarras de Chang

e daquela jovem bonita,

parecida com uma flor,

que nas nuvens do tempo se ocultava.

Do pavilhão da Grua Amarela

aos confins da ermida do asceta Ju Si,

a Lua o acompanhou nas fronteiras e nas águas,

clareando a relva de fios de seda esmeralda.

As folhas redemoinhavam

no terraço da Fênix de Jinling

e nas dobras da túnica de Li Po,

enquanto ele buscava o elixir dos taoistas

para dialogar com o vento.

Só de ver as tulipas,

que deixavam cair as pétalas,

esqueceu toda a tristeza.

(Márcio Catunda, em “Eternidade Humana”, p. 38)

Veja mais detalhes sobre “Eternidade Humana” e as condições para adquiri-lo, clicando no link abaixo, que conduz à página do livro nesta livraria.

Link no Alfaya Livreiro 1

https://alfayalivreiro.com.br/loja/livros-e-outros-impressos/poesia/eternidade-humana/

 

 

 

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Um quadro de Dalí, um livro de Oliani: A Persistência da Memória

“A Persistência da Memória” é o poético título de uma das mais importantes e famosas pinturas do controverso espanhol Salvador Dalí.  E, inspirado nessa obra, o brasileiro Luiz Otávio Oliani, residente no Rio de Janeiro, escreveu um livro de poesia com título homônimo ao do quadro do artista catalão.  A intertextualidade é uma das características mais evidentes na obra de Oliani.  Como sempre, longe de qualquer didatismo ou repetição óbvia, Oliani estabelece um diálogo que colabora para a persistência, na memória  humana, da obra e do nome do homenageado, ao mesmo tempo em que ele próprio prossegue no árduo e quase impossível labor de fincar âncoras e persistir na memória de um mundo que se autoliquida e se liquefaz, tais molengos relógios espalhados, feito “pizzas”, em uma cada vez mais seca e desértica paisagem.  Temos um exemplar à venda da obra de Oliani.  Mais informações em: https://alfayalivreiro.com.br/loja/livros-e-outros-impressos/poesia/a-persistencia-da-memoria/

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UM POEMA À WHITMAN

No dia 12 de maio de 2018, véspera do Dia das Mães e da data em que se comemora a abolição da escravatura (13 de maio), eu e o poeta Hudson Pereira fizemos parte de uma homenagem ao poeta Walt Whitman (1819-1892), considerado por muitos como o maior poeta da América do Norte.  O tributo foi promovido durante o evento “Um Brinde à Poesia”, organizado por Lucília Dowslley, poeta, compositora e representante da Dowslley Editora, de Niterói-Rio de Janeiro.  Aconteceu à tarde, no Museu de Arte Contemporânea (MAC), de Niterói.  Situado à beira da praia de Boa Viagem, o MAC-NIT é um misto de escultura com arquitetura, concebido pela mente visionária e futurista do genial Oscar Niemeyer.  O encontro marcava também o aniversário de Lucília.

Embora não seja um especialista em Whitman, nos anos 80 do século XX, eu lera duas biografias a respeito dele, além de vários poemas do autor, em obras que traziam seleções de seu escrito principal: o livro “Folhas de Relva”, poesia, uma obra que ele publicou em 1855 e que foi passando por inúmeras revisões, supressões e acréscimos até o ano de seu falecimento, 1892 (a chamada “edição no leito de morte”, correspondente à nona).  Na primeira edição, tinha pouco menos de 100 páginas.  Hoje, é possível baixar na internet ou adquirir impressa, uma versão traduzida de “Folhas de Relva” com quase 400 páginas.

A melhor biografia sobre Whitman foi a escrita pelo norte-americano Paul Zweig, intitulada “Walt Whitman, a formação do poeta” (Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1988, 383 p., brochura, com orelhas).  Não tenho essa obra à venda em minha livraria, pois só disponho de um exemplar, que, até hoje, consulto.  No entanto, ainda se encontra com facilidade o volume em outros livreiros de usados.

Dentre outras coisas, por essa biografia ficamos sabendo que Whitman trabalhou desde a juventude até o fim da vida como jornalista, mesmo quando eventualmente exerceu outras atividades.  E ficamos a par que foi um jornalista politicamente combativo, posicionando-se em favor da democracia e do fim da escravatura.  Descobrimos ainda que foi ele quem, pela primeira vez, utilizou o verso branco.  Whitman entendia que o verso branco, o verso livre, expressava a forma que deveria ter a poesia de um mundo igualmente livre.  E aqui é preciso lembrar que ele foi um poeta ainda remanescente do pioneirismo liberador do “sonho americano”. E, mais uma vez, foi ele que, primeiramente, trouxe toda sorte de temas para a poesia.  Em Whitman, em coerência com sua visão de totalidade, tudo era inclusivo, qualquer tema ou objeto se podia inserir na poesia.  E é assim também que ele se torna o primeiro poeta a tratar do assunto da homossexualidade em poesia.  E ele o fez em um livro inteiro, chamado “Cálamo”, incluso em seu “Folhas de Relva”.

O conteúdo cósmico, expansionista e liberador da poesia de Whitman causou um profundo impacto em minhas reflexões enquanto poeta.  Também, a descoberta de seus métodos de trabalho, pela extraordinária biografia escrita por Zweig, que a gente devora como quem lê um bom romance.

As palavras “saudação” e “canto” são termos-chave na poesia de Whitman. Também, a expressão de seu amor incondicional por cada pessoa, por cada indivíduo.  Na poesia de Whitman, ninguém fica de fora.  E foi pensando em tudo isso que escrevi o poema “Canto ao Futuro”, presente na página 193 de meu livro “Fronteiras em Liquidação”, poesia, pela Dowslley Editora (à venda nesta livraria).  Um poema às crianças, a todas as crianças.  Uma forma de homenagem, literalmente, à Whitman. Uma palavra de otimismo e celebração, num livro que se acha muito longe de qualquer otimismo pueril.

Não sei se por causa das datas, se pelo clima de celebração, se pela “presença” de Whitman, mas o fato é que terminei fazendo uma leitura forte e altamente emotiva, que obteve grande receptividade do público.  Eis o poema:

CANTO AO FUTURO

Eu saúdo as crianças do mundo.
Magrinhas ou gordinhas,
pobres ou burguesas,
sem dentes ou sorridentes.
Crianças na alma,
Quintanas em quintais.

Crianças redondas,
num mundo de luz,
brincando nas telas
de Orlando Teruz.

Crianças de cabelos de ouro
ou vermelhos como fogo;
de olhos tristes e pedintes;
de mãos pequenas e graciosas;
de cheiro de talco e pele viçosa.

Crianças de todas as cores e etnias:
amarelas, brancas, caboclas, douradas,
mulatas, negrinhas, rosadas…
Eu as saúdo, em todas as partes do mundo.

Seja forte ou doente,
Certinha ou problema,
Criança é poema.

(Ricardo Alfaya)

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Poema do livro “Café com Canela”, de Graci Sá

A título de degustação, transcrevemos  o poema presente na quarta capa do livro “Café com Canela”, de Graci Sá, à venda em nossa livraria. Segue também uma foto da autora no dia do lançamento da obra (colhida da página da escritora no Facebook).  Outro livro da coleção Sementes Líricas, aqui disponível para venda, é “Múltiplo Um”, da excelente poeta, ficcionista e dramaturga Maria Helena Latini (livro prefaciado por mim, Ricardo Alfaya).  E, num formato muito semelhante, seguindo a mesma linha editorial, “À Margem: volume 2”, do premiado Flávio Machado.  As três obras você encontra em nossa loja.

 

SE ESSA RUA

Se essa rua fosse minha
Eu mandava asfaltar
Tirava os buracos do caminho
E plantava uma árvore pra cada vizinho admirar

E essa não é promessa de outubro
Dessas que aparecem na televisão
É desejo, vontade. Merecia até um delubro

Não haveria solidão
Se essa rua fosse minha,
Não haveria roubos de coração
Muito menos, assaltos no portão

Se essa rua fosse minha
Eu colocaria trinta e uma flores na calçada
E pintaria de rosa as escadas
Só para todo mundo – e cada um
Passar mais tempo na sacada.

(Graci Sá)

 

Nota: “delubro” significa “templo pagão” (cfe. o Aurélio Eletrônico).

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ANTOLOGIA POETRIX 5 – Textos para degustação

Lindo e muito bem organizado (por Goulart Gomes) o volume “Antologia Poetrix 5”, do qual dispomos de sete exemplares à venda, por ótimo preço.  Exemplares novos, lançados em 2017.  O poetrix, conforme já é do conhecimento público, constitui um gênero minimalista de poesia. Foi lançado em 1999 pelo baiano Goulart Gomes.  Suas regras formais são fáceis de entender: tercetos, com até trinta sílabas (no total dos três versos), com título.  Pode conter rimas ou não e admite o uso de recursos gráficos (negritos, parênteses, intercalações de sinais e outros).  Quanto ao conteúdo, não possui regras inflexíveis. A temática é completamente livre, mas é desejável que o texto contenha um elemento de surpresa ou de encanto, conforme sucede com o haicai, em cuja leveza se inspira.  Também se espera que o título não seja mero penduricalho, mas sim, que dialogue o mais intensamente possível com os versos, muitas vezes agindo como complemento do poema.  O bom poetrix é sobretudo uma poesia de registro de “insights”.  Instantâneos, tanto do mundo exterior quanto do universo interior do poeta.  Dos gêneros poéticos existentes, o poetrix e o haicai são aqueles que melhor evidenciam o quanto a prática da poesia pode levar a um estado comparável ao da meditação.  Poesia que pode resultar da contemplação profunda, como nos ensina Cecília Meirelles, que tão inspiradamente percebeu que alguns dos melhores poetas não são propriamente catárticos e, muito menos, eufóricos.  Muitos dos melhores seguem o modo como a própria Cecília se autodefiniu: “Não sou alegre, nem sou triste: sou poeta.”   Neste doloroso momento da História Brasileira, em que vemos de novo o país ser inteiramente subserviente a essa entidade fantasmática chamada “mercado” e, mais uma vez, posto de joelhos perante os interesses dos EUA, é mais do que oportuno, até como forma de resistência, valorizarmos o que seja culturalmente nosso.  E o poetrix é, antropofagicamente, nosso.

Da “Antologia Poetrix 5” participam 43 poetas de todo o Brasil, incluindo o fundador do movimento, Goulart Gomes. Também participo dessa edição, que foi lançada em várias capitais do Brasil.  No lançamento ocorrido no Rio de Janeiro, em 11.08.2017, tive a satisfação de contatar pessoalmente alguns dos participantes que há muito conhecia apenas pelos trabalhos.  Cada um dos integrantes entrou com doze tercetos.  Portanto, temos aqui nada menos do que 516 poetrix.  A quase totalidade dos participantes escreve há muitos anos, e vários são nomes bem conhecidos dentro do Movimento Internacional Poetrix, com inclusão em inúmeras antologias do gênero, além de possuírem obras individuais.  Sem dúvida, todos mereceriam ter ao menos um poema selecionado para degustação.  Mas se ponho aqui 43 poemas do livro, isso já não seria uma degustação, mas uma refeição completa.  Então, escolhi, um tanto aleatoriamente (não são necessariamente os “melhores” poemas do livro), 16 trabalhos representativos, de diferentes autores.  Vou exibi-los em ordem alfabética, conforme aparecem na obra:

 

Por que rio?

Com tanto mar,

que diferença fariam

as minhas lágrimas?

(Aila Magalhães)

 

Artesanato

Extremamente fácil

desfazer-se do espesso pó

sobre as flores de plástico.

(Andrea Abdala)

 

Teatral

Chopin ao piano,

cair da tarde,

abre-se o pano!

(Antonio Carlos Menezes)

 

Lisboa

Nas paredes – azulejos,

na solidão – um fado.

Um barco nas águas do Tejo.

(Cecy Barbosa Campos)

 

Outono brasileiro

Golpe na democracia

Sonho em luto

Luto por igualdade

(Cristina Amorim)

 

Só existe um banco bom

O velho banco da praça

sem bancar nenhum centavo

não tem dono – é de graça.

(Cyro Mascarenhas)

 

Mil e uma noites

Antes de puxar o meu tapete

– cara senhora, caro senhor -,

saibam que ele é voador.

(Francismar Prestes Leal)

 

Comme la rose du petit prince

Incrível como é relativo o perfeito

o que mais me encantava

era o seu maior defeito

(Gersínio Neto)

 

Brinquedo

Latas, gravetos, ossos.

O menino

arquiteta mundos.

(Gilvânia Machado)

 

Cerca elétrica

O homem planta postes.

Vã tentativa

de cercar o tempo.

(Giuseppe Caonetto)

 

Poeira

uns, pretos

outros, brancos

até virarmos cinzas

(Goulart Gomes)

 

Espelhos

No teu rosto cálido,

dois olhos lúcidos

me contemplam pálido

(José de Castro)

 

Manias

Lavar as mãos dez vezes

trancar a casa cinco vezes

beijar tua boca para sempre

(Lílian Maial)

 

Paisagens de Viagem

Trago, cá dentro, imagens:

cenas, visuais bagagens e o

avesso de tanta roupagem.

(Paula Valéria)

 

Fugidias

Em tardes cinzentas como a saudade,

penso no valor das mãos:

acariciam lembranças fugazes.

(Regina Lyra)

 

Saltimbanco

Vive pulando

de montanha em montanha,

enganando abismos.

(Ricardo Alfaya)

 

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Um poema de Elaine Pauvolid

À SOLEIRA DA PORTA

Não sei do fado,
deixo-o sem glória e saio.
Piso na vida com tal zelo
que não nego os que me chegam,
nem tampouco me cegam ódio e medo.
Contraditória e calma,
varro a soleira da porta,
pensando nos meus erros,
com humildade caseira
e plenitude idólatra.

Elaine Pauvolid, em “Donde Evade”, em “Rios, coletânea de poemas”, Ibis Libris, Rio de Janeiro, 2003 p. 29.

“Rios” é uma coletânea que reúne cinco livros de poesia. Saiba mais sobre esse livro, que foi considerado um dos melhores do ano de 2003, em seu gênero, clicando aqui.